A experiência de trabalho na escola indica que o resumo é uma ferramenta importante de estudo e que seus alunos encontram dificuldades para elaborá-los, provavelmente devido ao fato de que o ensino de ferramentas para estudar costuma ser uma terra de ninguém na escola.
Em trabalho de consultoria, investigamos, junto a alunos de Ensino Fundamental II de uma escola particular do Rio de Janeiro, quais os obstáculos subjacentes à elaboração de resumos que servissem de apoio aos seus estudos nas disciplinas de História, Geografia e Ciências e encontramos as dificuldades descritas a seguir.
- Incerteza quanto aos objetivos da tarefa: certos alunos patinavam na seleção de informações que deveriam constar em seus resumos porque não lhes havia sido esclarecido com que objetivo deveriam elaborá-lo e tampouco conseguiam por si sós determinar um objetivo claro e razoável para a tarefa.
- Incerteza quanto à estrutura de um resumo: na falta de orientações precisas por parte dos professores, alguns alunos não conseguiam determinar por si sós os itens que conformariam a espinha dorsal dos seus resumos.
- Dificuldade de diferenciar informações essenciais e periféricas: alguns alunos não distinguiam com clareza o que era essencial daquilo que se caracterizava como detalhes. No entanto, percebemos que alguns alunos até faziam tal distinção mas acabavam se perdendo no emaranhado das informações periféricas, tentando adivinhar quais delas seriam cobradas nas provas, receosos das “pegadinhas” de que certos professores por vezes lançam mão.
- Dificuldade na sequência lógica de informações: refere-se à organização de informações num todo que faça sentido e que dê conta da totalidade de aspectos abordados em um determinado tema. Na verdade, esta é a única dificuldade intrínseca à lógica do resumo em si e foi detectada em uma quantidade muito pequena de alunos.
- Dificuldades ortográficas, de pontuação e de concordância verbal e nominal: diversos alunos cometeram erros desses tipos mas nem sempre apareciam em combinação com outros aspectos da elaboração do resumo, ou seja, havia ótimos resumos com muitos destes erros e resumos com problemas de outra categoria e sem nenhum destes erros. No entanto, vale ressaltar que alguns professores, diante de muitos erros deste tipo, tendem a considerar um resumo como “ruim” mesmo que o conteúdo esteja bom, num bom exemplo de que a forma pode obscurecer o conteúdo.
Pensando em ajudar os alunos a superar dificuldades na elaboração de resumos, desenvolvemos uma sequência didática de ensino desta ferramenta, começando por uma situação não escolar, a partir do pressuposto de que um resumo não se faz somente a partir de um texto escolar e de que ele é necessário em várias circunstâncias da nossa vida cotidiana. Assim, alguns professores do segmento em foco sugeriram que o trabalho se iniciasse com o resumo de um filme. Três filmes foram selecionados:
- A corrrente do bem http://www.interfilmes.com/filme_12997_A.Corrente.do.Bem-(Pay.It.Forward).html
- O triunfo http://www.interfilmes.com/filme_17116_O.Triunfo-(The.Ron.Clark.Story.The.Triumph).html
- Crash – no limite http://br.cinema.yahoo.com/filme/13025/crashnolimite
Compreendendo que a competência mais importante para a escritura de um resumo é diferenciar informações essenciais e periféricas, criamos uma sequência didática de sete etapas, com o objetivo de desenvolver esta competência.
Etapa I
Acionar esquemas próprios do ofício de platéia que assiste a um filme: como se assiste a um filme? Quais as atitudes adequadas e inadequadas?
Acionar esquemas prévios de compreensão: o que podemos esperar desse filme? Pensar no título, olhar a capa, antecipar o que vai ver através de levantamento de hipóteses.
Etapa II
Assistir ao filme. Interromper 2-3 vezes em partes que permitam antecipação de hipóteses a partir do que já se sabe, já se viu. Por exemplo, com base nas falas e ações de determinado personagem, perguntar o que pode acontecer agora com o novo fato do qual se acaba de tomar conhecimento.
Etapa III
Ao final do filme, promover uma conversa livre e descontraída, em que os alunos falem do que acharam da história. Algumas perguntas disparadoras da conversa: o que vocês sentiram durante o filme? Que conexões vocês fizeram com a vida de vocês, com outros filmes ou com casos que conhecem?
Etapa IV
Completar, em duplas, a ficha de trabalho Resumo do filme, utilizando a “técnica das reticências numeradas”.
Etapa V
Discutir com a turma toda o que foi essencial e o que foi periférico no resumo do filme, em relação à ficha de trabalho Resumo do filme. Houve muita variação nas produções das duplas? É possível chegar-se a um consenso quanto às informações essenciais do filme?
Etapa VI
Registrar individualmente por escrito o que aprendeu com essa sequência didática e como poderá diferenciar informações essenciais e informações periféricas em outros contextos quando precisar elaborar outros resumos.
Etapa VII
Ao longo das semanas subsequentes, aproveitar as ocasiões de estudo em que a competência resumir seja benéfica para uma melhor aprendizagem e incitar os alunos a fazer resumo de textos literários e informativos que tenham que estudar, utilizando a “técnica das reticências numeradas”ou qualquer outra que venham a desenvolver.
O próximo EstudiosaMENTE será Diagnóstico dos problemas de elaboração de resumo e sequência didática para ensinar a fazê-lo – Parte II, que apresentará as fichas de resumo de cada um dos filmes e explicará a “técnica das reticências numeradas”.


Marcia Bastos • 17 de junho de 2009
Queridas Helô, Cris e equipe
Mais uma vez vocês estão brilhando, acrescentando, fazendo pensar. Amei o site e serei leitora assídua. Obrigada e parabéns! Bjs,
Marcia Bastos
Martha de Souza Cruz • 17 de junho de 2009
Helô, Bel, Cris, Gabi
Que bela iniciativa!!
Já coloquei no mural da sala dos professores o site, podemos enviar nossos “casos de sucesso” e artigos???
Brincadeiras à parte…
O site veio preencher um dos tantos vazios que encontramos em nossa área!
Agora estaremos conectadas sempre!
Bj grande
Elica Goncalves • 14 de agosto de 2009
O trabalho desenvolvido é de excelente qualidade. Parabéns.
Gostaria de saber como fazer uma sequência didática, como desenvolvê-la e como avaliá-la.
Att,
Heloisa Padilha • 14 de agosto de 2009
Oi Elica,
Que bom que vc gostou e que o artigo contribuiu para despertar, em vc, outras questões.
Embora sua pergunta remeta a questões bastante complexas (quem sabe um EstudiosaMENTE só sobre isso?), posso adiantar que o raciocínio de elaboração de uma sequência didática funciona de trás pra frente: primeiro se define a competência ou competências necessárias para se operar um determinado tema e, em seguida, traçam-se todos os passos, isto é, todas as pequenas aprendizagens que poderão servir de degraus para o desenvolvimento da competência em foco. Para avaliar, é só oferecer uma situação em que a competência é indispensável e observar se o aluno a utilizou ou não e em que nível.
Um abração!
Jaylei • 1 de outubro de 2009
Heloísa, sobre sequência didática, nunca parei para colocar no papel, competências, passos etc, pois, nunca, isso me foi requerido. Não sei se esse é o espaço, mas eu gostaria de ver um exemplo concreto disso. É possível?
Heloisa Padilha • 5 de outubro de 2009
Jaylei,
Bem, sua pergunta é muito complexa mas vou tentar colocar vc no canal em que eu própria me coloco quando vou preparar uma sequência didática para que meus alunos aprendam um determinado conteúdo.
Uma sequência didática precisa considerar o ponto de vista do objeto a ser ensinado (o conteúdo) mas, principalmente, o ponto de vista do sujeito (o aluno). O planejamento de aulas pelo ponto de vista do objeto é o que vc já deve conhecer bastante bem pq se refere ao que o professor “vai dar”. Observe a expressão “dar” nesse contexto: é um movimento de mão única, que não considera como o aluno irá reagir.
O planejamento que tem como foco oferecer oportunidades para que o aluno realmente aprenda o conteúdo é completamente diferente porque se preocupa em como o aluno irá processar o conhecimento. A sequência didática de que falo no artigo se alinha com essa perspectiva e, portanto, começa por se perguntar de que maneiras um determinado conteúdo pode ser reconhecido pelo aluno daquela faixa etária específica. Trata-se de localizar as CIRCUNSTÂNCIAS em que aquele conteúdo comparece na vida do aluno e convidá-lo a refletir sobre elas. Também é importante pensar de que maneiras se pode FALAR sobre esse conteúdo, ou seja, com que linguagens – verbal, não verbal e mista. Exemplos de linguagem verbal são os textos informativos, jornalísticos (manchetes, notícias, reportagens, entrevistas etc, literários etc. Os textos não verbais são as imagens – fotos, ilustrações, charges… Os textos mistos combinam as duas linguagens em infográficos, gráficos, esquemas etc.
Por que estou falando disso tudo? Porque para se preparar uma sequência didática é preciso, antes, fazer uma ampla pesquisa sobre o que existe a respeito daquele conteúdo. A variedade de “objetos de aprendizagem” favorece enormemente a aprendizagem porque cada pessoa tem seus canais preferenciais de aprendizagem e sua teia particular de relações e de vivências; portanto, quanto mais objetos de aprendizagem o professor trouxer para a turma, maior a probabilidade de cada aluno “clicar” com pelo menos um deles.
Pois bem, você já está com seus objetos selecionados. Agora resta ordená-los, isto é, colocá-los na ordem em que serão apresentados, já que ainda não temos estrutura nas escolas para trabalhar senão de modo linear.
Um exemplo real que está em curso no momento: planejando o estudo dos conceitos piagetianos de assimilação e acomodação a meus alunos de pós-graduação em Psicopedagogia, ofereci-lhes as seguintes vivências: realizar determinadas ações no celular do colega, experimentar cantar as vogais em diferentes intensidades e ritmos segundo certas orientações dadas, analisar uma foto de jornal, e ler e refletir sobre certos tipos de textos verbais. Em cada uma das vivências, os alunos eram solicitados a observar se o processo que estava em jogo dentro deles próprios era o de assimilação ou o de acomodação. A cada situação vivida, os conceitos iam se ampliando e aprofundando pelas discussões acaloradas que se abria entre os alunos.
Faltaria deixar mais claro o que é um “objeto de aprendizagem” mas isso, na verdade, mereceria um artigo. Fora isso, deu para entender? Era isso o que vc queria? Se não for, pergunta mais!
thamires • 8 de março de 2011
linguagem mista e não verbal