Elogio na sala de aula

Você gosta de receber um bom elogio? Pois é, como parece que todo mundo gosta, a prática de elogiar alunos oralmente, diante da turma, ou por escrito, nos trabalhos escolares, tem sido amplamente utilizada por educadores, provavelmente com a intenção de estimular os demais alunos a seguirem o exemplo dos elogiados. Mas será que o elogio atende a esse propósito? Heloisa Padilha discute a eficácia do elogio aqui na seção Matutes da revista CARAMINHADAS.

Transcrição do vídeo

Vamos falar sobre o elogio em sala de aula. Devemos elogiar o aluno? Elogiar oralmente, na frente da turma toda? Elogiar por escrito? E se for bom elogiar por escrito, o que escrever? “Que lindo!”, “Parabéns!”, “Maravilha!”, “Continue assim!”. Será que essas falas dos professores, seja oralmente, seja por escrito, será que elas realmente atingem o objetivo de estimular o aluno? Muitos professores dirão: “Claro! Quem não gosta de um bom elogio?”

Mas, na verdade, o elogio é uma ferramenta de heteronomia. Heteronomia significa reger-se pela regra do outro; seguir o que o outro diz, o parâmetro do outro. Eu preciso da presença do outro, da fala do outro, das indicações do outro para poder saber o que eu vou fazer, o que eu posso fazer. E será que isso é o que a gente realmente quer dos alunos?

Na verdade quando a gente trabalha com elogio cria-se uma dependência que pode ser interessante de início, caso você esteja com uma turma muito complicada, mas pode ser um tiro no pé, porque se você não sair dessa condição de elogio, o aluno tenderá a ficar dependendo desse elogio para poder produzir. Isso não é um bom motivo para um aluno realmente criar algum texto, realizar um trabalho de boa qualidade. Na verdade, a recompensa não deveria vir de fora, e sim de dentro, do grande prazer de aprender, do prazer de resolver uma tarefa complexa.

E o elogio, se feito por escrito, ele cria essa dependência de que eu estava falando, e aí você vê aquela fila de alunos de séries iniciais do ensino fundamental, aquela fila de alunos pedindo, querendo o caderno, a ficha, o trabalho para o professor escrever “Que lindo!”, “Que maravilha”, e se aquilo não é escrito, não há um selo de validade, quer dizer, o aluno fica na dependência do professor para aceitar que a sua tarefa está bem cumprida, está adequadamente resolvida. E se, pelo contrário, em vez de elogios, nós devolvemos perguntas para os alunos ou dando parâmetros daquilo que realmente está bem atingido, bem feito e aquilo que ainda não está bem feito, tem um exemplo diferente no aluno. Por exemplo, “tô achando aqui que você teve uma boa ideia inicial, mas não desenvolveu muito bem. Você não quer experimentar esse ponto, esse ponto aqui; tem uns dois pontos aqui que você poderia desenvolver melhor”. Isso é diferente, é diferente do simplesmente “Parabéns”. E parabéns pelo quê?

Por outro lado tem o elogio oral na frente de toda a turma. Esse é mais complicado. No momento em que se elogia um aluno em público, diante de todos os seus colegas, significa que, na verdade, o resto da turma está toda “deselogiada”. Vamos explicar isso. Quando o professor pergunta assim: “Quem saberia dizer o que significa mercantilismo?”. Aí aquelas mãos se levantam: “Eu!”, “Eu!”, “Eu!”. O professor pega o primeiro que diz: “Mercantilismo tem a ver com mercado”. Aí o professor não gosta muito daquela resposta, fica quieto. “Bom, vamos ver uma outra resposta”, aí vem uma outra resposta, um outro dedinho levantado e aí dá um conceito que o professor acha adequado e aí ele diz: “Muito bem, fulano!”. Como é que se sente o cicrano que deu a primeira resposta? É um deselogio automático, é quase que uma reprimenda.

Melhor do que um elogio à pessoa, o que se pode fazer é aproveitar as contribuições dos alunos e costurá-las entre si de modo a fazer um pensamento da turma. Então: uma parte da definição foi dada aqui, uma outra parte foi dada lá, um terceiro elemento foi dado por um outro aluno e aí o professor costura as ideias para fazer um conceito, para fechar uma ideia, enfim, para resumir alguma coisa.

Pense sobre isso, fique matutando!

Contribuições dos leitores

  1. Isabel Padilha • 21 de junho de 2009

    Nunca vou me esquecer de quando ouvi que elogiar um aluno na frente da turma era ruim. De início discordei porque, afinal, quem não gosta de ser elogiado?
    Passei a reparar que de fato eu me sentia depreciada quando eu e outras pessoas comentávamos algo em sala e só uma era elogiada. Parecia que só o que essa pessoa disse foi bom e o resto era besteira. Aos poucos fui percebendo a diferença entre a costura de IDEIAS e o elogio a PESSOAS.

  2. Sandra • 1 de agosto de 2009

    Penso que tudo depende muito de como o professor conduz isso em sala de aula. Costurar as idéias formando um pensamento da turma é ótimo, mas precisa também criar um ambiente democrático favorável ao sucesso e não ao fracasso. Evitar comparações entre alunos, saber perceber a evolução de cada um e, principalmente fazer com que o próprio aluno tenha consciência do seu aprendizado são questões que dependem excencialmente da postura do professor em sala de aula. Talvez esse seja também um tema para discussão posterior…

  3. Jaylei • 20 de agosto de 2009

    Isabel, tive o mesmo sentimento que vc, afinal, cresci sendo elogiado e também espinafrado. :) De uma certa forma, sempre sofri por não conseguir certos objetivos e por conta desse aparente fracasso, saber que não receberia elogios, seja de quem fosse, até de mim mesmo.
    Tenho certeza de ter atuado várias vezes para ser reconhecido em sala de aula, seja sendo o mais estudioso, o comportado ou até mesmo, pelo menos, o esforçado. Isto lá está correto?
    Sim, penso que é o que muitos fazem para agradar aos outros e mesmo, por ex, o porquê de muitos relacionamentos não darem certo.

    Outro ponto, mesmo que concorde com a Sandra quanto à postura do professor fazer a diferença, ainda que os elogios se façam presentes, elogiar me parece servir somente para destacar atitudes e formas de pensar que o professor considera que estejam de acordo com o que ele pensa.
    Na relação professor-aluno o elogio acaba destacando certos alunos ou mais, pode formalizar um determinado agir em sala de aula somente para satisfazer o professor.

    A idéia de costurar me parece bastante interessante. Professor costureiro! Eta profissão que exige habilidades e competências bastante distintas, hein? :)

    Sandra, quando possível, gostaria de entender o que vc quer dizer com criar um ambiente democrático favorável ao fracasso.

    Abs.

  4. PApaleguas • 25 de novembro de 2009

    É um tédio ver meninas bonitinhas de uma sala puxando o saco e querendo se destacar. Aí vem o professor perfeito pra ela “muito bem… Parabéns, é isso aí que eu queria ouvir, maravilha, nossa, seu sorriso é lindo, eu me sinto bem com vc” até quando o professor diz: quem vai ler pra mim tal texto no quadro ou na apostila?… ela pula e diz: eu leio… e sai atropelando quem tiver… nestes momentos a turma fica intacta, e até deixa de falar, porque sabe que tem aquela que vai pular e querer ser a primeira, então a turma deixa o espaço livre totalmente pra ela. Na verdade não sei se é culpa dela ou de alguns professores. Só sei que ela inibe a turma.

  5. Joaquina • 10 de junho de 2010

    Pôr os textos que são pedidos!
    Mas em antes de mais até teho um elogio a fazer… O texto macima referido está muito bem construído!!

    Bem vou indo que já se faz tarde!!

    beijinhos para vocês todos!!!<3<3<3<3<3

  6. jhuliia • 11 de junho de 2010

    ameei tudo isso :) continueem assim..! seeu site faz sucesso

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