Pode haver espaço para a autonomia intelectual na escola?
Homer, um aluno de 17 anos, se encanta pela passagem do satélite Sputnik sobre o pequeno vilarejo em que mora e toma uma decisão: vai, ele próprio, construir um foguete. Uma professora percebe o potencial do rapaz e o incita a dar prosseguimento ao seu propósito, mas é a única na escola que o apóia.
O filme retrata os percalços de Homer para conseguir o seu intento e ele passa a persegui-lo com mais determinação depois de saber que, se for bem sucedido, poderá concorrer a uma bolsa de estudos universitários. Isso significa muito para ele porque o único destino possível para os jovens daquela cidade era trabalhar debaixo da terra, nas minas de carvão, ao passo que ele tinha os olhos para a direção oposta: os céus. Assim, sua liberdade e realização contavam unicamente com sua capacidade para lutar contra suas limitações internas (ele tinha muitas dificuldades em Matemática) e externas (total falta de apoio do pai, do irmão e do diretor, que, inclusive, o expulsa da escola).
Sendo uma narrativa baseada em fatos reais, cresce o interesse do espectador em ver como Homer conseguirá construir e lançar com sucesso o seu foguete e o filme serve como ótima ilustração de como se desenvolve a autonomia intelectual no campo do pensamento científico. Observe-se que a sucessão de experimentos mal sucedidos avança por meio de hipóteses cuidadosamente estudadas de modo autônomo. A cada fracasso, Homer e seus três amigos avaliam criteriosamente o que pode ter dado errado e determinam com que materiais e metodologia será feito o próximo foguete e quais as substâncias que servirão de combustível no próximo lançamento. A necessidade da Matemática para o sucesso da empreitada cresce e Homer consegue autonomamente ir desvendando seus segredos, num magnífico exemplo de que o desejo é um poderoso combustível para a superação de dificuldades de aprendizagem.
Uma importante questão que emerge do filme é: como pode a escola abrigar e incentivar a autonomia intelectual dos alunos? Sim, é claro que as dificuldades para fazê-lo são inúmeras. Mas há que se olhar a questão pelo outro lado: quanto está custando para o Brasil o NÃO desabrochar dos talentos da garotada? Será que não há pelo menos um Homer em cada escola e que, por ele, não vale a pena torcer um pouco as regras do jogo para que ele possa florescer?


Jaylei • 20 de agosto de 2009
“Mas há que se olhar a questão pelo outro lado: quanto está custando para o Brasil o NÃO desabrochar dos talentos da garotada? Será que não há pelo menos um Homer em cada escola e que, por ele, não vale a pena torcer um pouco as regras do jogo para que ele possa florescer?”
A Escola baseada em notas, em grades curriculares, avaliações normativas, poderia continuar a existir, talvez, em Plutão.
Fico pensando na Escola da Ponte e a sua filosofia singular de trabalhar com projetos feitos pelos alunos, áreas de interesse particularizadas, foco no aluno etc.
Cito essa Escola apenas como um novo pensar sobre a educação, não que ela seja o melhor caminho a ser seguido.
Sobre caminhos, quais os que devem ser construídos quando se fala de educação, de aprendizado? Devem ser caminhos pré-concebidos? Quando enveredar por atalhos que levem a novas percepções do ensinar, quando optar por desvios que possibilitem que talentos aflorem?
Querendo ou não, está enraizado na nossa cultura o ser melhor. Como avaliar isso? Ora, nota, classificação! E nota/conceito são ruins?
Se alguém é bom em algo porque dar uma nota para isso? Por que o mundo é assim ou porque está assim? E se somente está assim, se aceita modelos ad infinitum?
De todo modo, qual professor está preparado para avaliar a evolução de um aluno de outra forma?
Há muito por se discutir nesse assunto, porém, existem coisas que não deviam ser quantificadas. Deixo a pergunta:
Qual a nota que vale um pensamento independente de uma criança/pessoa que denote um entendimento diferenciado de alguma questão e dê nova cor ou mesmo modifique um conhecimento previamente estabelecido?
Abs.
Heloisa Padilha • 5 de outubro de 2009
Que pergunta instigante, Jaylei! O que vai prevalecer na hora da nota: a qualidade do que o aluno elaborou ou a distância em que ele se colocou em relação ao “certo”?
Normalmente o que se faz é essa medição: quanto mais distante do esperado pelo professor, menor a nota do aluno, mesmo que ele tenha produzido um pensar complexo inteiramente inédito. No buraco do fracasso em que os criativos e autônomos caíram deve haver uma porção de alunos perdidos, achando-se incapazes, quando podem até ser mentes verdadeiramente brilhantes!
Talvez seja mesmo necessário enfrentarmos, mais dia menos dia, a complexidade das questões pedagógicas. Essa situação que vc levanta aponta para um esforço em conjugarmos duas dimensões: a subjetiva, que avalia o percurso do sujeito, a qualidade de suas construções e apresentações, e a objetiva, cujo louvável propósito de servir como base para políticas públicas exige que avaliamos os alunos a partir de critérios que permitam comparações e classificações. Conseguiremos combinar essas duas dimensões?