A quem a escola deve ser fiel: ao aluno ou ao programa?
Muito se fala, ainda nos dias de hoje, embora com uma terminologia meio anos 70-80, que “o aluno deve ser o centro do processo educativo”. O século XXI derrubou a idéia de “centro” já que a interpenetração ou inter-relação entre os diversos campos do saber foi substituída pelas imagens de “rede” e de “rizoma”. Mas, nem por isso podemos afastar o aluno do foco principal da preocupação escolar porque, afinal, a escola deveria ser, de fato, para o aluno. O problema é como se operacionaliza isso…
O filme Escritores da liberdade encara essa questão a fundo. Percebendo que os conteúdos programáticos de sua matéria não tinham a menor relação com a vida de seus alunos – adolescentes maltratados pelo duríssimo cotidiano de luta pela própria sobrevivência numa comunidade extremamente violenta –, a professora Erin (de Língua Inglesa) opta por abandonar seus planos iniciais de aula e ir ao encontro das angústias que tanto os perturbavam.
Se a vida deles era permeada de intolerância, ódio e preoconceito, então era disso que se deveria falar. Começou, então, por apresentar a seus alunos um outro tempo e um outro espaço em que a humanidade já vivera dessa forma: o holocausto. Conhecendo a história de milhares de outras pessoas que, como eles, haviam vivido em ambiente de extrema violência, os alunos encontraram sua própria voz e desandaram a deixar escoar suas próprias histórias por meio da escrita diária.
O que dizer dessa iniciativa de Erin? Deixou ela de dar aulas de sua matéria? Deturpou seus objetivos? É assim que seus colegas e a chefe do seu departamento encaram o que Erin fez. Na verdade, justamente por ter promovido alterações profundas e radicais no seu programa para adequá-lo às reais necessidades de seus alunos é que Erin acaba se destacando por ser a professora que guardou maior fidelidade aos objetivos do ensino da língua materna: conseguiu fazer com que seus alunos passassem a ler e a escrever, coisa em que seus colegas fracassavam há tempos!
Daí a pergunta-título desta Cineminhola: a quem deve a escola ser fiel – ao aluno ou ao programa? Essa indagação não deve nos jogar diante de dilemas do tipo “ou dou minhas aulas a sério ou levo as coisas na brincadeira”. Esta é uma falsa dicotomia. Se me mantenho firmemente dedicado aos objetivos do trabalho, encontro um enorme leque de maneiras para atingi-los. Se achar conveniente, posso lançar mão de estratégias como cantar, dançar e passear com meus alunos sem gerar bandalha alguma, como Erin fez. Contrariamente a isso, alinham-se diversos professores e escolas que, num respeito praticamente religioso ao programa, acabam abrindo mão do compromisso e da responsabilidade para com a aprendizagem de seus alunos.


Tatiana • 9 de agosto de 2009
Bem, senhores assisti ao filme acima mencionada e este me tocou muito,me comoveu.Sou professora de língua materna e percebo que muitas vezes é necessário abandonarmos o conteúdo programático em proveito do aprendiz, porque este é o centro do processo educacional. A educação deve ser para o homem, por isso tudo é válido se no fim ele tiver progredido.
regina • 22 de setembro de 2009
Sou professora do curso de graduação em Odontologia e me interesso bastante por assuntos sobre didática. Parabens pelo site, em especial por este artigo. Também assisti ao filme Escritores da Liberdade e refleti bastante sobre seu conteúdo. É comum nos determos em conteúdos e planos de ensino, sem nos perguntarmos sobre a realidade e as necessidades diárias do nosso aluno, que inclui a formação, mas vai muito além disso.
Silvio Lobato • 11 de janeiro de 2010
Parabéns pelo site, é uma grande contribuição à educação. Sou acadêmico de pedagogia e creio que esse filme me fez refletir como ser um bom professor no futuro…