Heloisa Padilha
Este artigo apresenta a “técnica das reticências numeradas” aplicada a textos escolares, e finaliza a série Diagnóstico dos problemas de elaboração de resumo e sequência didática para ensinar a fazê-lo – Parte I e Parte II.
Princípio da técnica
A técnica das reticências numeradas, que aplicamos a resumo de filmes na Parte II desta série de artigos, pode ser utilizada em qualquer texto escolar porque o nosso pressuposto é o de que nenhum texto está completo, finalizado. Em qualquer um, é possível apontar diversos pontos que poderiam ser expandidos com mais informações ou com elementos linguísticos – adjetivos, advérbios – que dariam mais vida ao texto. Comecemos com um exemplo bem simples. O trecho a seguir aceitaria, sem dificuldade, enxertos (indicados por meio de reticências) nos pontos assinalados com números (daí o nome “reticências numeradas”):
Em 1492, a Espanha (…1) dá início à sua expansão (…2) depois de expulsar os mouros da Península (…3). A rota escolhida foi pelo ocidente (…4) para poder alcançar o oriente (…5), pois Colombo (…6) queria provar que a terra era redonda. Acabou descobrindo a América, terra que seria (…7) disputada pelas potências européias (…8).
As reticências acima numeradas poderiam ser preenchidas com informações da seguinte natureza, respectivamente:
(…1) “que na época era governada pela rainha Isabel”
(…2) indicar o tipo de expansão – no caso, “marítima”
(…3) “Ibérica”
(…4) indicar o ponto de partida da rota
(…5) indicar o ponto de chegada da rota
(…6) apresentar algum ou alguns dados sobre ele
(…7) acrescentar um advérbio, como “ferrenhamente” ou “duramente”
(…8) citar as potências
Como o professor pode conduzir a atividade?
É interessante disparar a atividade por meio de uma proposta coletiva, isto é, para toda a turma. O professor pode projetar um trecho do livro didático (ou distribuir cópias para todos os alunos) com indicação de 3-4 reticências numeradas e perguntar aos alunos que tipo de informação poderia ser inserida ali. Não é necessário que eles saibam exatamente o dado a ser inserido, mas que discutam se a informação a ser acrescentada pode ser uma data, um nome, um adjetivo, um advérbio ou qualquer outro complemento da informação já existente. É interessante pedir que os alunos justifiquem suas sugestões com bons argumentos.
Incentive os alunos a indicar outros pontos do texto que aceitariam inserções. Aproveite bem o fato de que vários alunos assim em conjunto podem chegar a um montante bastante grande de informações. Um quantitativo grande de sugestões é bom para se passar à próxima etapa, que é decidir se os acréscimos são essenciais ou periféricos. Voltando-se ao exemplo acima, não seria relevante acrescentar que idade a rainha Isabel tinha quando Colombo partiu para sua viagem de descobrimento da América.
Depois do debate, os alunos, individualmente ou em dupla, poderiam reescrever o trecho original inserindo as informações que julgar mais relevantes. Na sequência, seria muito produtivo trocar os textos para comparar as novas versões e, nessa ocasião, os alunos podem ser incentivados a expressar sua opinião (fundamentada, é claro) sobre os textos dos colegas.
Num segundo momento, pode-se fazer o caminho inverso: cortar todas as informações de um texto escolar até deixá-lo com o menor tamanho possível sem que as ideias principais se percam. O professor pode disparar a atividade sugerindo que sejam feitos, por exemplo, de 3-4 cortes no texto. A seu critério, pode desafiar os alunos a cortar mais ainda. E repetem-se os procedimentos de julgar se as informações retiradas foram essenciais ou periféricas até que se chegue a um certo consenso na turma, gerando assim um texto informativo bem resumido, apenas com as informações julgadas as mais essenciais.
Reafirmando-se mais uma vez que saber fazer um bom resumo é parte necessária do estudar e que a competência fundamental envolvida no ato de resumir é diferenciar informações essenciais e periféricas, consideramos que a técnica de reticências numeradas pode ser uma ferramenta de grande valia para os alunos na longa trilha de construção das competências do estudar.


Sandra • 22 de setembro de 2009
Gostei muito dessa matéria e ficaria muito feliz se fosse feita outra sobre a utilização de textos de maneira interdisciplinar e contextualizada. De acordo com a tendência atual para trabalhar temas atuais e que, ao mesmo tempo não fogem aos conteúdos.
Muito bom!
Abraços Sandra
Heloisa Padilha • 5 de outubro de 2009
Sandra,
Você utilizou as palavras mais importantes do universo escolar do nosso tempo: interdisciplinaridade e contextualização. Fique atenta a uma nova seção que vamos lançar aqui na Caraminhadas, chamada TRILHAS, em que vamos relatar dispositivos didáticos que temos criado e utilizado em trabalhos de consultoria em psicopedagogia institucional. Já estamos preparando um post exatamente com essas duas palavrinhas. Quem viver verá!
Wanessa Guimarães • 6 de outubro de 2009
Heloisa, fico muito contente por ter a oportunidade de conhecer cada vez mais o seu trabalho, que é sempre surpreendente. Adorei a contribuição da técnica de resumo, trabalho isso com os alunos, mas nunca transferir essa atividade para as outras disciplinas. Dessa forma, cada vez mais a nossa atividade quanto a mediadores de produção de texto vai fazendo sentido.
Parabéns!!!!
Heloisa Padilha • 11 de outubro de 2009
Ei, Wanessa, que bom que vc está gostando da Caraminhadas! Que ela lhe seja sempre proveitosa!