Quando a moral infantil é mais sábia do que a adulta
O filme apresenta delicioso ângulo de visão de uma vida dura, através dos olhos de duas crianças – o menino Ali e sua irmã Zahra, mais nova do que ele. No início do filme, Ali vai buscar o único par de sapatos de Zahra no conserto mas, por um capricho do destino, estes são inadvertidamente “abduzidos” por um vendedor ambulante.
Sem condição de partilhar com os pais tal infortúnio, as crianças conseguem, por meio de inteligente subterfúgio, se comunicar entre si na frente dos pais sem que estes disso dêem conta. Nessa conversa secreta, não há dúvida entre os irmãos: Ali é integralmente culpado pela desastrosa situação em que coloca Zahra e desde aquele momento fica bastante claro que a única medida que vai reverter tal situação é conseguir sapatos para que Zahra continue indo à escola.
Juntos, eles concebem o complicadíssimo esquema de partilhar o mesmo par de sapatos, o que era possibilitado pelo fato de frequentarem a escola em turnos diferentes. O esquema consistia em Zahra correr da escola para casa ao final do seu turno escolar, a fim de trocar sapatos com Ali; da mesma forma, Ali também precisaria correr para a escola para tentar chegar a tempo para o início do seu turno.
Sendo assim obrigado a correr como o vento, Ali percebe que desenvolveu grande velocidade de corrida e descobre que pode utilizar a nova conquista para tentar estar entre os vencedores de um concurso de corrida promovido pela escola. Isso não deveria ser tão difícil assim dado o fato de que estava super em forma, mas o problema é que precisaria calcular seu desempenho para chegar em terceiro lugar – e não em primeiro ou em segundo – porque o prêmio do terceiro lugar era… um par de tênis, ou seja, o objeto de seu maior desejo!
Em síntese, o filme gira em torno da seguinte questão: se Ali era o responsável pelo sumiço dos sapatos da irmã, a única ação que reverteria o problema seria obter-lhe outro par de sapatos. Não adiantava Ali conseguir um livro, uma boneca ou uma guloseima para Zahra. Não adiantava Zahra dedurá-lo aos pais porque vê-lo ser castigado fisicamente pelo pai não resolveria seu problema. Somente um sapato reporia a falta do sapato. Simples assim!
Segundo os estudos de Piaget sobre o desenvolvimento da moral na criança e no adolescente, o conceito envolvido nessa situação é o de reciprocidade, isto é, de relação entre a falta cometida e a ação que a ela se segue. Botar criança de castigo porque deliberadamente quebrou algum objeto alheio seria o oposto do pensamento de reciprocidade porque se um objeto foi quebrado, a ação que precisa ser feita é consertá-lo ou adquirir um novo exemplar.
As medidas punitivas de reciprocidade indicam claramente ao culpado a ruptura do elo de solidariedade e a obrigação de ele se encarregar de repor a ordem que perturbou. As punições e ações que não guardam relação direta para com o problema ou a falta cometida tendem a produzir o efeito de descomprometer o sujeito com as consequências de suas ações. Isso tudo dito, o uso do princípio da reciprocidade se apresenta como uma estratégia bastante promissora no processo de construção de uma moral autônoma.
Que tal experimentar conduzir, com base no princípio de reciprocidade, algum conflito entre seus alunos ou seus filhos em que uma das partes tenha causado um dano direto ou indireto na outra? Experimente e depois venha partilhar conosco!

