Princípios e práticas da escola precisam se alinhar
O ano é 1959. No início do filme, a entrada dos alunos no hall de um internato para rapazes fornece imediata e clara mensagem de que a ação se passará em um ambiente austero e tradicional. Os indicadores estão todos lá: a atitude solene de todos os participantes da cena, o impecável uniforme dos estudantes, os estandartes com o brasão da instituição e com os princípios, a entoação do hino da escola.
Quando o diretor abre seu discurso enfatizando os cem anos de fundação da escola e lembrando que esta tem como base os princípios de “tradição, honra, disciplina e excelência”, a informação chega a ser redundante já que tudo ali o prenuncia. O que salta aos olhos é essa magnífica consonância entre o que é dito e o que é feito, ou seja, entre príncipios e práticas. Nesse caso, diz-se que é uma escola alinhada.
Mas eis que a escola contrata um professor de Língua Inglesa que introduz práticas de sala de aula que não se alinham com a identidade da escola. O filme se conduz de modo a levar-nos a tomar partido do professor e, por conseguinte, a condenar a escola. Por mais que sejam fascinantes a metodologia e os propósitos do novo professor, a verdade é que ele distoa da instituição em que aceitou trabalhar.
E não se pode dizer que ele entrou de inocente na história porque, afinal, ele próprio é ex-aluno. Além disso, se suas ideias inovadoras estavam libertando alguns de seus alunos e ajudando-os a desenvolver novos talentos, havia vários outros bastante desconfortáveis com tais ideias. O esforço de alinhamento entre princípios e práticas escolares pode causar marolas ou tormentas na escola. No filme, o caso é certamente de tormenta. E das grandes!
Nas escolas da atualidade, os projetos político-pedagógicos estão abarrotados de frases que indicam uma determinada intenção cuja tradução no concreto, no entanto, se faz mediante iniciativas que a contradizem por completo. E esse desalinhamento fica provocando marolas ou tormentas sem fim, seja por meio de desaprendizagens e indisciplina, seja por problemas de relacionamento em todas as instâncias – alunos e famílias que ficam perdidos sem entender o que esperar da escola ou o que a escola espera deles, professores de diferentes segmentos que trabalham em linhas conflitantes etc.
Para citar apenas um dos desalinhamentos mais comuns, consideremos o que se diz e o que se faz com espírito crítico. Diz-se que é objetivo da escola desenvolver a criticidade nos alunos mas a adoção de um livro didático único e a dinâmica de trabalho fortemente passiva e de orientação individual privilegiam o não diálogo entre professor e alunos, dos alunos entre si e entre autores de correntes rivais de pensamento. Impossível desenvolver espírito crítico sem marcante contribuição do debate, argumentação ou confronto!
Algumas perguntas bastante inquietantes podem ser levantadas nesse contexto a título de instigar o leitor a trazer contribuições para um debate conosco: um professor tem o direito de ferir os princípios de uma escola e, assim, causar desalinhamento entre o que se diz e o que se faz? Se, como no filme, uma prática inovadora trouxe amarras e desconfortos para certos alunos da mesma forma que as práticas tradicionais o faziam em relação a tantos outros, qual é a saída? É possível dinamizar e modernizar uma escola se seus princípios o condenam? Se os princípios da escola fossem autonomia e cidadania, que práticas se alinhariam com eles?

Jaylei • 1 de outubro de 2009
Só fico pensando se mudássemos “aluno” para “cidadão” e “escola” para “sociedade”.
Das perguntas do texto destaco a última.
Se os princípios da sociedade fossem autonomia e cidadania, que práticas se alinhariam com eles?
E deixo outra pergunta: Se autonomia e cidadania realmente perpassassem pelas salas de aulas ou fizessem parte da práxis, quais os desafios, ou melhor, quais os maravilhosos desafios que os professores teriam que enfrentar?
Heloisa Padilha • 5 de outubro de 2009
Jaylei,
Vou embarcar nas suas questões e navegar livremente nelas, ok?
Para começar, penso que as aproximações entre aluno e cidadão, por um lado, e escola e sociedade, por outro, são muito apropriadas já que a escola pode ser vista como um importante locus de experiência social para os jovens seres que estão chegando a esse mundo. Exatamente por esse motivo é que precisaríamos levar muito mais a sério a resolução de conflitos na sala de aula e oferecer muito mais oportunidades de negociar significados e soluções para os alunos exercitarem, num ambiente menor e de modo supervisionado, o convívio em sociedade. Essas seriam algumas das práticas que se alinhariam com os princípios de autonomia e cidadania. Se autonomia é reger-se por si próprio sobre uma base de regras sociais internalizadas e se cidadania é conduzir-se socialmente em função de direitos e deveres, então precisamos que nossos alunos proponham e defendam seus direitos e aprendam a se submeter a um sistema de deveres gerados por regras consensuadas entre seus pares; e precisamos que eles sejam convidados a pensar e a criar relações próprias e inéditas entre os conhecimentos que vão construindo.
Isso supõe oferecer-lhes opções. Opções de linguagens, de fontes de consulta, de metodologia de estudo, de tamanho e formato do trabalho etc, etc. Isso NÃO significa deixar fazer o que quiser, nem preparar tantas opções quanto o número de alunos, mas abrir alternativas e estar aberto para outras tantas que os alunos venham a sugerir.
Esses seriam alguns dos desafios sobre os quais vc se pergunta: incentivar os alunos a questionar mas sem que isso se transforme em baderna; permitir que criem sem que isso seja visto como rebeldia ou transgressão. Ah… os paradoxos, os oxímoros… muito difícil lidar com eles… mas ao mesmo tempo, fascinante!