
Lidando com um jeito “esquisito” de ser
Abandonado por seus pais, Dennis é um menino que acredita ser de Marte e muitas das coisas que faz são bastante estranhas para os padrões “normais”. Há muitas condutas sociais que Dennis desconhece, o que dificulta bastante a sua adaptação à sociedade e ao ambiente escolar. E, de fato, a escola, aprisionada por seus objetivos e práticas massificantes, falha em ver, nas esquisitices de Dennis, o potencial de decifração do seu mundo interno e acaba por expulsá-lo, declarando-se abertamente não estar preparada para lidar com ele.
David, um escritor de sucesso, é o adulto que está tentando ser o pai adotivo de Dennis e se sente particularmente preparado para entendê-lo não somente pelo fato de ter sido ele próprio uma criança “esquisita”, como também utiliza seu passado fantasioso como base para suas histórias de ficção científica. Ele é a criança “fracassada” e excluída que se tornou um adulto de sucesso. Sabe, portanto, como passar de um estado a outro.
E se, na escola, Dennis não encontrou nenhum acolhimento, em casa, pelo contrário, há uma série de pequenas cenas (às vezes divertidas, às vezes emocionantes) do cotidiano familiar entre ele e seu pai adotivo, que mostram como David embarca, com facilidade e sem medo, nas esquisitices junto com o menino.
Do ponto de vista educacional, o que merece especial destaque nesse filme é esse percurso que um adulto deve fazer quando precisa ajudar uma criança ou um jovem “esquisito” a encontrar seu lugar nesse mundo. A atitude de David não é a de ficar apontando o quanto o menino está inadequado para o convívio social e, sim, a de ir lá no universo alienígena daquele patinho feio (que se diz ser marciano), agir como ele e aprender a ver o mundo pelos olhos dele.
E o mais lindo é que o amor de David por Dennis eclode lá dentro desse lugar esquisito e não depois, porque ele consegue entender e apreciar a beleza do mundo que Dennis construiu para se proteger de sua triste história. E, por deitar esse olhar amoroso cheio de admiração pelo menino, David ganha a força necessária para derrubar algumas paredes desse mundo infantil particular e, então, apresentar o menino a outros ângulos da vida.
Seria muito bom que a escola tivesse essa mesma determinação de ir ao encontro dos patinhos feios e acolhê-los antes mesmo de começarem a trocar de plumagem. Afinal, o patinho feio não sabe que é um lindo cisne; quem conhece bem essa história é que deveria reconhecer um pequeno cisne deslocado no meio dos patos e saber valorizá-lo pelo que é e, apreciador de sua beleza natural, saber encontrar-lhe um lugar confortável na escola.
Esse lugar se constroi sobre as bases da diversidade: diversidade de oferta de objetos de aprendizagem, diversidade de dinâmicas de sala de aula, diversidade de percursos de aprendizagem e de avaliação. Não se trata de criar uma escola para cada aluno, mas de começar um processo de diversificação abrindo novas possibilidades dentro das práticas já existentes.
Venha discutir conosco sua experiência e suas questões sobre a diversidade na sala de aula para abrigar os jeitos “esquisitos” de ser. Você bate a bola e a gente rebate, que tal?

