A escola em busca de identidade

Heloisa Padilha

Para preparar a conversa sobre a necessária busca que a escola precisa empreender para se libertar das amarras que a prendem ao século passado, é interessante refletir sobre uma outra instituição que tinha tudo para desaparecer nas dobras da modernidade mas, pelo contrário, renovou-se e encontrou uma nova roupagem e uma nova identidade. Falo sobre o circo.

O circo faturava seu milenar sucesso em cima da exploração dos animais, do risco, do bizarro e dos limites da ação humana. Ver animais realizando feitos inimagináveis, viver a tensão de assistir artistas fazendo malabarismos nas alturas com risco de vida, horrorizar-se ao contemplar seres humanos portadores das mais bizarras deformações e apreciar pessoas se contorcendo, equilibrando ou levantando peso nos confins do limite do possível – esses foram os quatro pilares que levaram legiões de espectadores aos circos através dos tempos.

E eis que de repente, não mais que de repente, três desses pilares caíram ao mesmo tempo no fundo fosso do politicamente incorreto. Sobrou a exploração das ações humanas extraordinárias que também apreciamos nos esportes olímpicos. Como poderia o circo sobreviver com apenas um de seus pilares? Assim, as opções eram: desaparecer ou reinventar-se.

E o circo reinventou-se: o mundo foi subitamente inundado pelos grandiosos espetáculos do Cirque du Soleil.

Quando entramos em uma de suas tendas, reencontramos, para começar, a própria! Apesar de toda tecnologia, a tenda do Cirque du Soleil é definitivamente uma tenda e só isso já é suficiente para que entendamos claramente que vamos assistir a um espetáculo circense. Mas tem mais: ainda reencontramos palhaços, malabaristas, equilibristas e apresentadores. Só que a semelhança acaba aqui. Então qual foi a reinvenção? O que o Cirque du Soleil fez foi trocar o entretenimento obtido por meio da exploração do perigo, do medo e do asco, pelo entretenimento que vem do Belo. E a tradução que se deu ao Belo combina dois ingredientes: o encantamento das narrativas e a riqueza que eclode do diálogo entre as várias artes.

Como diz Ana Maria Machado, ninguém resiste a uma boa história. E agora o Cirque du Soleil conta histórias, como Saltimbancos, Jornada do Homem ou Ovo, sendo que esta última, concebida e dirigida por Debora Colker, bailarina e coreógrafa brasileira, fala sobre a vida dos insetos. Agora, é no contexto de uma narrativa que os artistas mostram suas extraordinárias habilidades.

Além disso, costuraram-se todas as artes que podem dialogar no contexto de um moderno espetáculo circense. Assim é que se deram as mãos a música, o canto, o ballet clássico, a dança contemporânea, o vídeo, o teatro e todos os seus componentes – figurino, maquilagem, iluminação e cenografia –, tudo isso amplamente potencializado pelos recursos da tecnologia. O diálogo também se dá entre diferentes culturas porque os artistas são captados em países do mundo inteiro e, assim, o circo se beneficia do convívio com a diversidade.

Em resumo, a saída foi buscar fortes ingredientes da cultura contemporânea e fazê-los trabalhar conjuntamente: o diálogo entre as artes e entre as manifestações culturais de nações de todos os continentes fornece todo o suporte de que a narrativa precisa para acontecer em toda a sua grandeza e diversidade e, assim, emocionar a plateia.

Seria coincidência que as palavras mais significativas da orientação legal da educação brasileira atual, a LDB, sejam contextualização e interdisciplinaridade? Deixemos o paralelismo mais evidente. Na escola, trabalhar contextualizando os conteúdos significa explorar sua inserção no contexto mesmo em que foram criados ou em que existem. Isso supõe ir trançando uma rede, em que pessoas, fatos, objetos e fenômenos se relacionam por elos de semelhança (relações simétricas, como de pertença a um mesmo contexto) ou de diferença (relações assimétricas de causalidade, por exemplo).

Essas tranças de relações acabam compondo narrativas, as quais vão permitindo a criação de significados, em um processo que poderia substituir com grande vantagem as tradicionais práticas de cuspe-e-giz e de memorização, porque conteúdos trançados em redes de conexão que fazem sentido para o aluno são muito melhor compreendidos e retidos como referência do que pedaços isolados de conteúdos.

Por outro lado, à bela ligação das artes no espetáculo circense moderno corresponderia, na escola, a interdisciplinaridade. O diálogo entre as áreas de conhecimento pode ser feito tomando-se de empréstimo, umas às outras, conteúdos teóricos (conceitos) ou práticos (métodos, técnicas, procedimentos).

O sucesso de tal diálogo estará garantido quanto mais ele tiver sido realmente necessário para se estudar, compreender e resolver problemas reais. Se os professores puderem estar juntos para pensar e resolver problemas do cotidiano escolar, cada um emprestando seu olhar, poderão vivenciar a riqueza de tal metodologia de trabalho e, assim, compreender a importância da convergência de saberes para sanar as questões que nos afligem ou intrigam: como podemos garantir que todos os alunos se alfabetizem nessa escola? Como ensinar a estudar e a pesquisar?  Qual o sentido do dever de casa para os professores, alunos e famílias? Por que trabalhar com livro didático? Com que critérios se cria uma biblioteca escolar? Como despertar valores como responsabilidade e respeito nas relações interpessoais?

O começo da caminhada em direção à interdisciplinaridade seria, pois, esse diálogo docente sobre o cotidiano. Em seguida, professores se encontrariam para planejar o trabalho conjuntamente, incitando os alunos a estabelecer relações entre conceitos, voltados para compreender e resolver problemas aos olhos do diálogo entre os saberes.

Contextualização e interdisciplinaridade, tal como aqui brevemente delineadas em suas linhas gerais, poderiam ajudar a escola a encontrar uma identidade mais antenada com as mudanças que vieram para ficar na sociedade e que minam seus principais pilares, tal como as narrativas e a religação das artes souberam fazê-lo pelo circo?

E o que precisamos nos perguntar a seguir?

Contribuições dos leitores

  1. Jaylei • 13 de dezembro de 2009

    Eu vejo um enorme problema antes de considerar qualquer conceito educacional, o salário.
    Acho absurdo demais se pagar tão pouco a profissionais que trabalham com as futuras gerações. Pagar ± 800 reais por 20 horas na rede estadual?. Mesmo sendo 12 horas sem sala de aula, dá ± 17 reais/hora aula. Ridículo…
    Sim, sim, salário não é tudo, pois mesmo que se pagasse 5x o valor atual, ainda existiriam as idéias antiquadas, os nichos resistentes à mudanças e até o desinteresse. Porém, salário motiva e dá uma balançada boa para que outras coisas sejam discutidas, além do quando vai ser o próximo reajuste ou quando faremos greve.

    Voltando com essa sentença da Heloísa:

    “Se os professores puderem estar juntos para pensar e resolver problemas do cotidiano escolar, cada um emprestando seu olhar, poderão vivenciar a riqueza de tal metodologia de trabalho…”

    Se as pessoas pudessem estar juntas e discutir sobre as mazelas do mundo sem olhar para o seu próprio umbigo, se tivessem a mente aberta para novas idéias, se pudessem expandir o seu conhecimento sem pensar no dinheiro, pensando somente no ganho que determinadas mudanças trariam no ambiente escolar, na vida, será que ainda estaríamos falando sobre interdisciplinaridade e contextualização, fome e miséria?

    Focando na educação. Interdisciplinaridade só se tornou bem clara para mim no Mestrado em 95, após ter entrado em desespero por ver que conhecimentos segmentados, alguns já esquecidos, iriam me fazer falta. Foi meu orientador, João Alfredo Medeiros, um dos maiores químicos analíticos do país que me disse: “Você aprendeu em blocos, disciplinas separadas. Tem que trabalhá-las em conjunto, você tem que vê-las como um todo.”

    Garanto que a maioria dos profissionais que se formam hoje em dia não têm essa visão. Ainda vão levar para as suas salas, a grade curricular, a avaliação normativa, o cada um no seu quadrado, literalmente. Até acho que tenha que haver o especialista, a pessoa que estudou profundamente um determinado assunto, mas professor deveria abrir mentes, explorar conceitos nem sempre solidamente estabelecidos, desiquilibrar o aluno deixando a mente viajar na busca do novo equilíbrio, do novo, mexer com os paradigmas, mas, ao mesmo tempo, esclarecer na medida possível, agrupar pensamentos dissonantes, focar, orientar. É função para se ganhar 17 reais por hora?

    Eita, volto ao salário e o espaço não é para isso, mas não resisto ao pensamento de que trabalhamos no elevado campo das idéias e tem que ser assim, mas o básico ainda é raridade. Escola com carteiras para canhotos, equipamento audiovisual, quadra de esportes, alimentação balanceada etc. Será que é só no ensino público?
    Sim, escola se faz na vida, sentando na sombra da amendoeira, sob teto de zinco suando em bicas, mas não é o caso, ok?

    Fico por aqui.

  2. Teresa Fazolo • 29 de dezembro de 2009

    Bela analogia, do circo com a escola. Não sou da área, mas acredito que a escola logrará êxito em sua missão quando for uma continuidade da vida do aluno, e não um espaço à parte, onde se vai ou por obrigação ou para encontrar os amigos. Escola e vida cotidiana devem andar juntas, aliás, a vida não é uma escola?
    Grande abraço.

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