Este ESTUDIOSAMENTE abre uma série de três artigos contendo reflexões sobre a aula a partir dos seus tempos.
Uma aula possui, grosso modo, três tempos ou momentos: início da aula, aula propriamente dita e término da aula. Dito assim, parece simplório e irrelevante mas a importância de se recortar a aula se explica pelo fato de que, para podermos planejar intervenções que melhorem de fato a aprendizagem dos alunos, é preciso analisar criteriosamente como as aulas estão sendo dadas.
O recorte temporal em distintas categorias cumpre bem esse papel porque direciona e apura o olhar para os fenômenos que ocorrem em cada parte da aula e isso favorece o desenvolvimento de uma linguagem que dê conta de se falar de modo crescentemente profissional sobre o assunto. O importante é entender que cada tempo da aula, de acordo com sua especificidade, precisa estar comprometido em contribuir para a aprendizagem do aluno, e é preciso saber avaliar como cada um deles está cumprindo esse papel.
A análise de um conjunto de aulas pode indicar, por exemplo, que as estratégias utilizadas no decorrer da aula estão ricas, variadas e interessantes mas que a ausência sistemática de abertura e de fechamento de cada aula está ocasionando uma falta de costura entre elas. É aquela situação em que os alunos gostam das aulas mas a turma está com excesso de notas baixas. O motivo? Talvez os alunos não estejam conseguindo conformar um conjunto que faça sentido e quando não há sentido a aprendizagem dificilmente acontece.
Feita esta breve introdução sobre os tempos da aula, concentremos aqui a atenção sobre a primeira parte da trilogia, que apresenta e discute o primeiro tempo de aula.
A categoria temporal “início da aula”, que, obviamente, se ocupa dos minutos de abertura, precisa dar conta de três objetivos: (a) contextualizar o tema da aula para os alunos a fim de que compreendam tanto a sua relevância quanto a sua inserção no conjunto de estudos que estão sendo realizados naquela matéria; (b) convocar os conhecimentos prévios dos alunos sobre o tema; e (c) acionar os esquemas de aprendizagem dos alunos.
O termo contextualização instaurou-se oficialmente no cenário escolar no cenário do nascimento da LDB (Lei de Diretrizes e Bases), em 1996. Contextualizar um conteúdo para o aluno significa, em linhas gerais, indicar as relações que tal conteúdo mantém com a vida real (o que, via de regra, o relaciona com diversos conteúdos, tanto dentro de uma mesma área como também de várias outras) e situá-lo historicamente, isto é, explicar como e por que foi criado ou desenvolvido. Todo conhecimento é uma construção humana; nesta condição, apresenta uma inserção na vida humana e isso precisa ser explicitado para o aluno.
Além de contextualizar, é próprio do tempo inicial da aula buscar saber que informações, ideias, crenças etc. os alunos já possuem sobre o tema. Essa iniciativa abriga um rico potencial de dados sobre os conhecimentos prévios dos alunos, que pode servir de base para uma avaliação prévia, por parte do professor, do ponto de partida em que eles se encontram em relação ao assunto a ser tratado naquela aula. Assim, pode ser que o professor tenha imaginado que precisaria, ele próprio, trazer certas informações iniciais para os alunos e, nesse momento, perceber que eles já as possuem. Nesse caso, o professor poderá ajustar o seu planejamento e, em vez de trazer tais informações, perceber que precisa, na verdade, ajudar os alunos a levá-las do nível do senso comum para o (cada vez mais) científico.
Finalmente, também cabe ao tempo inicial da aula a incumbência de acionar os esquemas de aprendizagem dos alunos. Os esquemas são como ferramentas: é o que se utiliza para realizar alguma ação. Assim, ter esquema para recortar uma gravura com tesoura supõe que se tenha os esquemas de manejar a tesoura em linha reta e em linha curva. Alguma criança terá o esquema necessário para recortar em linha reta mas não ainda em linha curva. Da mesma forma, ter os esquemas necessários para produzir um pensamento crítico em relação à posição de um determinado pensador a respeito do aquecimento global, supõe entender que será necessário compará-la com uma posição contrária, destacando e comentando pontos de semelhança e diferença importantes entre ambas e, a seguir, fechar as ideias apresentadas por meio de uma conclusão.
Não se nasce sabendo fazer esse tipo de coisa. Muito pelo contrário, são necessárias infinitas oportunidades para se aprender a desenvolver esquema complexos como esse. Por isso, é importante assinalar para os alunos que tipo de ação – sensório-motora, simbólica ou lógica – se espera dele naquela aula. Há aulas voltadas para a conceituação de algum termo. Em outras, o interesse do professor é que o aluno caracterize certos fatos, fenômenos, personagens etc., ou que construa um sistema de relações de causalidade entre eles. Em cada ocasião dessas, os esquemas convocados são diferentes e muito ajuda se o professor apertar, logo de saída, os “botões” que acionam a aprendizagem a partir do uso de certo esquema ou esquemas.


Silvia Rocha • 24 de maio de 2011
Gostei especialmente da frase: “Todo conhecimento é uma construção humana; nesta condição, apresenta uma inserção na vida humana e isso precisa ser explicitado para o aluno.”
Muitas vezes as pessoas colocam determinados conhecimentos como se fossem uma coisa sobrenatural. Isso é muito comum nas aulas de matemática, por exemplo. Todo o conhecimento matemático foi construído por seres humanos. Pessoas que tiveram necessidades e motivos para desenvolver conceitos e criar métodos de solução de problemas. Os alunos são impelidos a decorar fórmulas sem nem ao menos saber por que motivo alguém as criou. Na minha opinião, a contextualização é o momento mais importante da aula. Conteúdos são fáceis de encontrar em bibliotecas e na internet. Mas poucos professores procuram fazer com que esses conteúdos façam sentido para os alunos.